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Dilma: 'Minha vida me trouxe aqui'


Dilma: 'Minha vida me trouxe aqui'

Por Fernanda Pompeu, especial para o Yahoo! | Yahoo! Brasil – 26-03-13
Dilma, pioneira. (Foto: Estadão Conteúdo)31 de outubro de 2010, às 20 horas e sete minutos, o apresentador do Jornal Nacional William Bonner dá a notícia para todo o país: "Nos próximos quatro anos e pela primeira vez na História, o Poder Executivo no Brasil será comandado por uma mulher. Dilma Rousseff está oficialmente eleita."

Esse fato ocorreu 121 anos depois da Proclamação da República pela qual passaram 35 presidentes, todos homens. Esse negócio de ser mulher inaugural não era novidade na vida pública de Dilma. Já havia sido a primeira secretária de Indústria e Comércio de Porto Alegre, a primeira ministra de Minas de Energia e a primeira ministra-chefe da Casa Civil da Presidência da República. Mas, é claro, ser eleita a maior autoridade política do país tinha um simbologia bem especial. Não apenas para ela. Também para todas as brasileiras. A partir dela, ninguém mais dará risada quando qualquer menina disser: "Quando crescer quero ser presidenta do Brasil."

Pois não foi por acaso que antes de Dilma tenha havido só presidentes homens. O poder com P maiúsculo sempre foi repartido entre eles. Didático também é recordar que as brasileiras apenas conquistaram o direito ao voto na década de 1930, e que o Banco do Brasil, fundado em 1808, só abriu concurso para as mulheres em 1969. Daí a eleição de uma mulher para comandar o país foi de fato um feito histórico. Não há dúvida que a candidata teve um importante padrinho político, o Lula. Segundo relata Ricardo Batista Amaral, autor da biografia de Dilma "A vida quer é coragem", o então presidente teria dito: "Tem pessoas a quem a gente confia um trabalho e elas fazem tudo certo. Esses são os bons. E há pessoas a quem a gente dá uma missão e elas se superam. Essas são especiais. A Dilma é assim."


Dilma cumprimenta papa Francisco. (Foto: Reuters)

A imagem de profissional competente e determinada não é percepção exclusiva do ex-presidente. Volta e meia, surgem declarações adjetivando Dilma como durona, mão firme, gerentona. Ela mesma parece corroborar: "Sou uma mulher dura cercada de homens meigos." Faz mais o tipo sério, algumas vezes sisudo. Mas também é capaz de surpreender com tiradas bem-humoradas, como fez ao falar com a imprensa depois da visita ao novo pontífice. Ela soltou: "O papa é argentino, mas Deus é brasileiro". O fato é que dureza e sensibilidade não são excludentes. Dilma sempre fala em força e ternura. Racionalidade e emoção. Compromisso e técnica. Paixão e ação. Antes de ser eleita com mais de 55 milhões de votos, ela havia deixado marcas de excelência por onde trabalhou. Até mesmo os que não gostam da presidenta reconhecem que ela é uma senhora planejadora. Agarrada ao laptop, leva a sério a realidade dos números. Exige de seus colaboradores que provem o que estão dizendo. O nome que se dá a isso é pragmatismo.


Dilma é sucessora do governo de Lula. (Foto: Estadão Conteúdo)

Mas Dilma também é receptiva a histórias de vidas muitas vezes sem número algum. Quando ainda ministra, ao justificar o programa, criado por ela, "Luz para Todos" (eletricidade levada aos grotões do Brasil profundo) usou imagens quase poéticas: "A eletricidade vai tirar a vida dos mais pobres da escuridão". Também foi uma das mentoras do PAC - Programa de Aceleração do Crescimento, um guarda-chuva abrigando obras de infraestrutura. Lula então a chamou de "mãe" do PAC. Ela retrucou: "Se ser mãe é cuidar, então sou mãe." Empossada no Planalto, a presidenta não se esqueceu das mulheres. Sem nunca ter se declarado feminista, escolheu para a Secretaria de Políticas para as Mulheres Eleonora Menicucci, companheira de prisão e feminista puro-sangue. No último 8 de Março - Dia Internacional da Mulher - Dilma fez um pronunciamento em rede nacional. Nele, deplorou a desigualdade de remuneração entre homens e mulheres e a violência doméstica.

Da Torre das Donzelas ao Planalto

Posse de Dilma Roussef na presidência. (Foto: Estadão Conteúdo) 

Dilma Vana Rousseff nasceu no 14 de dezembro de 1947, em Belo Horizonte.
Filha de Dilma Jane e do imigrante búlgaro Pedro Rousseff. Viveu a infância e adolescência no conforto de uma família classe média. Perdeu o pai aos quinze anos. Ela conta que foi o pai quem a introduziu no mundo dos livros, o que a tornaria  uma leitora inveterada. No exato dia que Dilma completou vinte e um anos, a ditadura militar meteu goela abaixo do povo o Ato Institucional número 5, o AI-5. A partir dele, ninguém podia questionar ou discordar de qualquer ação ou política do governo. Não se votava, não se opinava, não se organizava e era proibido protestar. Em todo país algumas pessoas, a maioria delas jovens, resolveram peitar a ditadura. Se tornaram clandestinos e muitos partiram para o enfrentamento armado. Foram criados dezenas de grupos organizados. Dilma ingressou em um deles. A resposta da repressão foi pesada e dizimadora. Dilma Rousseff foi presa em 1970. Foi direto para o centro de tortura do Doi-Codi, em São Paulo. Depois de torturada intensamente por dois meses foi transferida para o Presídio Tiradentes. Lá, a ala das presas políticas era denominada a Torre das Donzelas.

Foi solta dois anos e dez meses depois. Mudou-se para Porto Alegre. Entrou na Faculdade de Economia. Teve com Carlos Araújo, com quem viveu 21 anos, a filha Paula. Mas ela nunca abandonou a paixão pela política. Participou dos bastidores do Movimento Feminino Pela Anistia liderado por Terezinha Zerbini, Helena Greco e outras senhoras destemidas. Se aproximou do PDT de Leonel Brizola e foi se destacando com todo brilho em cargos públicos. Sua reiterada firmeza e competência a levaram para Brasília - o centro do poder. Finalmente, ela subiu a rampa do Palácio do Planalto com a promessa principal de erradicar a pobreza extrema no Brasil. O slogan de seu governo é "País rico é país sem pobreza". Oxalá esse slogan se transforme em alegria concreta.

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