O
presidente dos EUA, Donald Trump, em pronunciamento em 3 de janeiro de 2026.
Foto: Jim Watson/AFP
Com Brasil de mãos atadas, China pragmática e ONU sem ação, Trump pode obter ganhos internos às custas de um precedente perigoso na América Latina.
Por Leonardo Miazzo, redator da CartaCapital - 03.01.2026
Com
passagens pelos ministérios da Fazenda e do Meio Ambiente e pela Secretária-geral
da Conferência da ONU sobre Comércio e Desenvolvimento, Ricupero afirmou que as
declarações de líderes internacionais sobre o ataque buscam apenas reforçar a
defesa de princípios do direito, sem qualquer efetividade.
“Ninguém
tem ilusão sobre isso”, resume. “Qual organismo poderia responder? O único
seria a ONU, em cujo Conselho de Segurança os Estados Unidos têm poder de veto.
Qualquer resolução condenando os Estados Unidos seria vetada, e só o Conselho
poderia decidir, em teoria, sobre o uso da força.”
Para o
ex-embaixador, a sorte de Nicolás Maduro, capturado e levado aos Estados
Unidos, já está selada. A dúvida neste momento, prossegue, é o futuro da
Venezuela, uma solução que depende da correlação interna de poder.
“A
verdadeira força do regime não era Maduro, que não tinha a força de Hugo
Chávez. A força vinha do apoio das Forças Armadas”, avalia. “A única evolução
que os apoiadores de um ato como esse poderiam desejar seria a convocação de
eleições em pouco tempo.
Contribui
para a falta de reação a postura cuidadosa da China, que condena a agressão a Caracas,
mas mantém seu pragmatismo, voltado aos seus próprios interesses geopolíticos —
entre eles, a pressão sobre Taiwan.
Em um
pronunciamento na tarde deste sábado 3, Trump disse que os Estados Unidos
“governarão” a Venezuela até se concretizar o que chamou de “transição adequada
e justa”. Segundo ele, a Casa Branca estava preparada para um novo ataque, “muito
maior”, mas estima que “provavelmente” não será necessário.
O
presidente declarou ainda que o petróleo venezuelano “voltará a fluir” com uma
companhia norte-americana na liderança das operações.
Na América
Latina também impera uma certa apatia. Rubens Ricupero ressaltou que a margem
de manobra do Brasil no repúdio à agressão norte-americana é estreita, uma vez
que, além da ausência de mecanismos eficientes de resposta, o governo Lula ainda
busca avançar na reconstrução dos laços com Washington após as sanções
aplicadas em julho e revertidas — em grande parte — no fim de 2025.
“Haverá um
protesto, mas dentro dos limites”, projetou. “Elevar muito o tom não adianta,
porque não vai servir para nada. Se servir, será para tornar mais difícil ainda
a relação brasileira, que não é boa.”
Ainda
assim, pondera, Trump abre um precedente bastante perigoso, porque até aqui
suas ações na região miravam supostos narcotraficantes, sem uma conotação
política mais ampla e direta. Além disso, a agressão ocorre em um momento em
que a América do Sul se divide no aspecto ideológico: por exemplo, com governos
de esquerda no Brasil e na Colômbia, e com administrações de direita na
Argentina e, agora, no Chile.
Embora
Trump tenha insistido nos últimos meses na alegação de combate a embarcações
supostamente vinculadas ao tráfico de drogas, o ataque deste sábado é mais
estratégico e pode levar a ganhos pessoais na disputa política interna, segundo
Ricupero — inclusive no flerte trumpista com um terceiro mandato em 2028.
Desta
forma, o republicano repete uma abordagem utilizada em junho, quando bombardeou
instalações nucleares do Irã: ações espetaculares, mas limitadas e cirúrgicas,
sem escalar para um confronto aberto e generalizado, ao menos de início. Como
lembra o ex-ministro, uma parcela significativa dos eleitores de Trump
reivindicava o fim do envolvimento dos Estados Unidos em contendas
internacionais, não o início de novas guerras.
Trata-se de
uma abordagem arriscada. “Uma hora pode haver um erro de cálculo e isso pode
levar a algo mais grave”, adverte o diplomata. Ao que tudo indica, porém, ainda
não será desta vez, e a Venezuela se vê no centro de um cenário de incerteza
tão comum em intervenções norte-americanas na América Latina no século XX.
Fonte: https://www.cartacapital.com.br/mundo/esperar-resposta-internacional-ao-ataque-contra-a-venezuela-e-ilusao-diz-ricupero/?utm_medium=email&utm_campaign=boletim_diario_-_05012026&utm_source=RD+Station
Acesso em 04-01-26
Comentários
Postar um comentário